domingo, 21 de abril de 2019

Aula 04/2019 - Crise na Venezuela








Resultado de imagem para crise na venezuela




TEXTO 1 – FATO MOTIVADOR -  Apagão na Venezuela
Diferentes regiões da Venezuela seguem sem energia elétrica mais de 90 horas após o início de um apagão que começou na quinta-feira (7). A queda de força é um problema a mais para a população, que já enfrenta uma longa crise econômica, hiperinflação, desabastecimento e distúrbios sociais devido à situação política do país.
Praticamente o país inteiro foi afetado pelo apagão, em maior ou menor extensão. Segundo a agência AFP, além da capital, 22 dos 23 estados do país tiveram cortes na eletricidade. De acordo com um membro do comitê executivo da Federação dos Trabalhadores da Indústria Elétrica da Venezuela, Alexis Rodríguez, três estados -- Mérida, Lara e Zulia – que seguiam com falta de energia nesta segunda, serão os últimos a tê-la restabelecida.
As agências do setor elétrico da Venezuela, do governo de Nicolás Maduro, falam em "sabotagem criminosa e brutal contra o sistema de geração elétrica" na usina de Guri, no estado de Bolívar, a mais importante do país e uma das principais da América Latina. Especialistas acusam o governo de Maduro de não ter investido na manutenção da infraestrutura por conta da crise econômica. O autoproclamado presidente interino e líder da oposição Juan Guaidó disse que o apagão é decorrente de corrupção e falta de manutenção.
-Há relatos de que pacientes morreram em hospitais em decorrência da falta de energia elétrica, mas não existe balanço oficial. Organizações não governamentais contabilizam ao redor de 20 mortos.
-No Instituto Médico Legal da capital, onde as famílias aguardam a identificação dos mortos, as câmaras frias pararam de funcionar e os cadáveres entraram em putrefação.
-Dezenas de moradores de Caracas precisaram recorrer ao Rio Guaire, um dos mais poluídos da Venezuela, para buscar água, devido aos problemas no abastecimento provocados pelo apagão.
-Apesar de a estatal de petróleo PDVSA garantir os suprimentos de combustível, muitos postos fecharam por falta de energia.
-A retirada de dinheiro nos caixas eletrônicos foi suspensa.
-A telefonia celular falhou.
-Muitas pessoas perderam comida que tinham em suas geladeiras, num país com problema de abastecimento.
-O governo suspendeu a jornada de trabalho e as aulas nas escolas desde o início do corte de energia elétrica.

TEXTO 2 – Cinco mitos sobre a crise na Venezuela (e o que acontece de verdade)
Nos últimos três anos, a crise na Venezuela se agravou, a ponto de fomentar relatos, dentro e fora do país, pintando um cenário bastante catastrófico da situação no país.
Mas até que ponto as coisas estão tão ruins no país - que foi rico e hoje é pobre.
Destacamos cinco tópicos que parecem estar enraizados na opinião de muitos sobre a Venezuela.
1. "Na Venezuela há fome"
Em algumas regiões da Venezuela se passa fome, mas não a maioria da população.
90% dos venezuelanos disse em 2015 ao levantamento Encovi que está comendo menos e com menor qualidade.
De fato, a crise alimentar se aprofundou em 2016; se veem mais filas e são relatados mais casos de subnutrição, com mais pessoas que comem duas ou menos vezes por dia.
De acordo com a Fundación Bengoa, especialista nesta área, a desnutrição está entre 20% e 25%.
Mas duas mortes (de fome) por dia a cada 10 mil pessoas não parece um número factível neste momento.
Especialistas venezuelanos concordam que o que acontece no país não é o mesmo que na Etiópia nos anos 80 ou na Coreia do Norte em 1990.
Mas muita gente tem alertado: "estamos à beira da fome."
2. "Venezuela é igual a Cuba"
Em geral, três elementos permitem que argumentar que "a Venezuela se cubanizou", como alguns dizem: as filas para comprar produtos racionados, a dualidade da economia e da militarização do governo (onde a inteligência e o governo cubano têm influência).
Mas essa comparação só pode ser feita até aí.
A Venezuela é um país capitalista onde o setor privado tem certa atividade, apesar das restrições e expropriações do Estado - que adquire cada vez mais controle sobre a economia. Em Cuba, o setor privado é mínimo.
Na Venezuela, a internet é a mais lenta da região, mas quase todos têm conexão com acesso ao Facebook, Netflix e meios de comunicação internacionais críticos ao governo. Em Cuba não.
3. "A Venezuela é uma ditadura"
É um debate acadêmico que leva alguns anos: se na Venezuela há uma "ditadura moderna" ou um "regime híbrido".
Mas são poucos os especialistas, no país e no exterior, que falam de uma ditadura tradicional.
Primeiro, eles dizem, porque há oposição, por mais que não tenha acesso a recursos que o partido governista tem - e apesar das prisões e restrições a que representantes seus tenham sido sujeitados.
E há eleições, embora tenham removido alguns poderes da Assembleia Nacional - eleita com votos - quando ela passou a ser controlada pela oposição.
Em segundo lugar, a imprensa independente na Venezuela, apesar dos problemas - falta de papel, pressão do governo e com muitos de seus jornalistas em julgamento ou na prisão - existe.
O grau de democracia no país parece ser medido de acordo com a posição política da pessoa que o faz: se poucos analistas falam em "ditadura total", somente uma minoria também acredita que haja "uma plena democracia".
4. "Todo mundo odeia Maduro"
Muitos fora do país perguntam como é possível que Maduro ainda esteja no poder.
De acordo com várias pesquisas, ele tem entre 20% e 30% de apoio.
Estas são as pessoas que o sentimento de apreço pelos benefícios sociais do passado impede de criticar abertamente o governo.
Ou as pessoas com medo de perder a casa, pensão ou vales-alimentação que recebem do governo.
Em todo o caso, o apoio de 30% é mais do que tem os presidentes de Chile e Colômbia.
Alguns dizem que o chavismo é doente terminal, mas Chavez continua a registrar 60% de aprovação, por isso, é difícil pensar no fim do chavismo, por mais aguda que seja crise.
5. "Você não pode sair de casa"
A criminalidade desenfreada e o medo levou alguns a preferirem assistir a um filme em casa do que ir a um bar à noite.
Mas ainda há muitos, não só em Caracas, mas em todo o país, que vão a discotecas, bares e restaurantes.
Paradoxalmente, no lugar onde há mais assassinatos, nos bairros populares, a noite é tão ativa como em qualquer cidade, mas nas áreas de classe média e alta as ruas ficam desertas após as 21h.
Na Venezuela deve-se ter um perfil discreto, não falar no celular nem mostrar uma câmera na rua. Quanto mais velho for o carro e as roupas que se veste, melhor.
Apesar disso, os centros das cidades e vilarejos são durante o dia são tão ou mais agitados do que em qualquer outro lugar na América Latina.
Fonte 1: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36863392

TEXTO 3 – Por que a crise na Venezuela interessa tanto países como Rússia, China e Turquia
O que há de tão especial na Venezuela que atrai a atenção de tantos países?
China de olho nos seus investimentos
A razão da China para acompanhar de perto o que acontece na Venezuela tem 11 números.
O país asiático é o maior credor de Caracas. Enquanto o resto dos agentes econômicos duvidava cada vez mais da capacidade do país sul-americano de saldar suas dívidas, Pequim emprestou mais de US$ 50 bilhões para a Venezuela (alguns analistas estimam que o valor seja ainda maior, na ordem de US$ 67 bilhões).
Acredita-se que boa parte desse empréstimo já tenha sido paga pelo país sul-americano. Segundo Carlos de Sousa, especialista na América Latina da empresa de análise e previsão econômica Oxford Economics, ainda faltaria pagar pelo menos cerca de US$ 16 bilhões.
Mas a decisão chinesa de investir na Venezuela é estratégica. "(A China) sempre teve uma visão de longo prazo em relação à Venezuela: sendo este o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, fazia sentido investir ali como uma forma de garantir uma fonte de petróleo, (produto) que é necessário para seu crescimento", disse Carlos de Sousa, da Oxford Economics.
Porém, Guaidó já tentou dissipar as dúvidas e os receios chineses. "Nosso governo vai agir com respeito às leis e às obrigações internacionais (da Venezuela)", disse Guaidó em entrevista ao jornal chinês South China Morning Post, no início de fevereiro. "Todos os acordos que foram assinados com a China de acordo com a lei serão respeitados."
Pequim, por ora, já demostrou seu apoio a Maduro. Mas também admitiu ter falado com "todas as partes" do conflito. Mais do que fidelidade política, a prioridade chinesa é assegurar seus interesses econômicos.
A Venezuela tem forte presença na mídia russa e até no Parlamento do país.
Para a Rússia, a Venezuela representa um interesse geopolítico "muito importante" para "neutralizar os interesses" dos Estados Unidos em áreas tradicionalmente consideradas de influência russa, explicou Carlos de Sousa.
"(O envolvimento dos EUA no confronto com a Ucrânia) foi uma situação muito incômoda para a Rússia". Então, o governo Putin está fazendo o mesmo na Venezuela: 'bem, agora sou eu que te incomodo'. Então, (a questão venezuelana) não é algo essencial, mas é interessante para que a Rússia tenha alguma influência no 'quintal' dos EUA", acrescentou o especialista.
Para os russos, a Venezuela não apenas representa um campo de batalha externo, mas também interno.
O editor do serviço russo da BBC, Famil Ismailov, afirmou em dezembro: "Geralmente, o povo russo está cansado de ajudar governos como o sírio e o venezuelano, em vez de ver esse dinheiro investido dentro do país. Mas o governo russo tem uma máquina de propaganda muito forte".
O presidente Vladimir Putin apoia fortemente Maduro, e a imprensa russa oficial questiona o apoio popular à oposição venezuelana.
"Também há interesses econômicos muito importantes. A Rússia investiu cerca de US$ 10 bilhões (na Venezuela)", apontou Sousa. Alguns analistas acreditam que o número pode ser ainda superior, de cerca de US$ 17 bilhões.
"Os russos viram (a situação da Venezuela) de forma oportunista. A recessão no país e a queda na produção de petróleo já haviam começado. Então, a Rússia viu uma oportunidade de comprar ativos da indústria petrolífera a preços muito baratos", disse o analista da Oxford Economics.
Irã e a 'venezualização'
Apesar de estarem separados por mais de 12 mil quilômetros, o Irã e a Venezuela mantêm uma relação que, segundo o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, é "sagrada". O Irã tem sido um dos poucos países a demonstrar apoio a Maduro, chamando a autoproclamação de Guaidó de "tentativa de golpe".
Chávez e o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad foram os responsáveis por fortalecer os laços entre os dois países. Desde então, ocorreram diversas visitas oficiais dos dois lados.
Mas a aliança entre a Venezuela e o Irã é de natureza diferente, como explica o editor da emissora persa da BBC, Ebrahim Khalili: "O governo apoia a Venezuela porque sua estratégia é ser contra tudo que os Estados Unidos são a favor. Fala abertamente que devemos estar perto dos inimigos dos nossos inimigos".
Turquia em busca de ouro venezuelano
Maduro também é muito conhecido na Turquia. Em setembro do ano passado, por exemplo, um vídeo do venezuelano saindo de um restaurante de luxo em Istambul provocou controvérsia.
Era a quarta visita de Maduro à Turquia desde 2016, quando as relações entre as duas nações começaram a florescer. Naquele ano, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan sofreu uma tentativa de golpe, e Maduro foi um dos primeiros líderes mundiais a apoiá-lo.
Não surpreende, então, que Erdogan tenha criticado os Estados Unidos por apoiarem Guaidó.
O parlamento turco tem, inclusive, um grupo dedicado à "amizade" turco-venezuelana. Segundo seu presidente, Kerem Ali Surekli, do partido de Erdogan, "ambos os países resistem a intervenções externas, rechaçam intervenções externas e bastam a si mesmos".
Fonte:       https://www.bbc.com/portuguese/internacional-47312442

Aula 03/2019 - Coletes Amarelos


Resultado de imagem para coletes amarelos frança




TEXTO 1 – FATO MOTIVADOR -  Na França, coletes amarelos são acusados de antissemitismo
No 14º final de semana seguido de manifestações dos coletes amarelos na capital francesa, ofensas consideradas antissemitas chamaram atenção. O presidente do país, Emmanuel Macron, condenou ataques verbais feitos a um proeminente intelectual judeu francês, o filósofo Alain Finkielkraut, no último sábado, dia 16.
A polícia interveio para formar uma barreira depois que um grupo de indivíduos envolvidos no protesto confrontou o filósofo e começou a insultá-lo verbalmente. O acadêmico judeu de 69 anos disse ao jornal "Le Parisien" que ouviu pessoas o chamando, aos berros, de "sujo sionista" e ouviu gritos como "jogue-se no canal".
O presidente Macron disse que este episódio foi uma "negação absoluta" do que fez a França grande e que isso não seria tolerado. Alain Finkielkraut disse ao "Journal du Dimanche" que sentiu um "ódio absoluto" dirigido a ele, e teria tido medo em relação à sua segurança se a polícia não estivesse lá, embora tenha enfatizado que nem todos os manifestantes foram agressivos. O episódio ocorre pouco depois de o ministro do Interior da França alertar que o antissemitismo está "se espalhando como veneno" no país, com uma série de incidentes similares registrados no centro de Paris no final de semana passado. Grupos judaicos também têm alertado para o crescimento do antissemitismo e do ódio contra outras minorias em toda a Europa, promovidos pelo crescimento da extrema-direita.
Dados oficiais da Alemanha, divulgados na semana passada, revelam que as infrações de caráter antissemita aumentaram 10% no último ano — incluindo um aumento de 60% no que diz respeito a ataques físicos.

TEXTO 2 – Veja quem são os "coletes amarelos" que protestam na França
Os manifestantes na França, denominados “coletes amarelos”, reúnem aposentados, artesãos, diaristas, camareiras, desempregados, operários e pequenos empresários. Eles lideraram por três semanas uma onda de protestos no país, protagonizando cenas de violência em Paris, e levando o presidente francês, Emmanuel Macron, a suspender o reajuste do imposto sobre combustíveis.
"Eu queria ver Macron e [o primeiro-ministro, Édouard] Philippe vivendo com 1.100 euros líquidos por mês [o equivalente a cerca de R$ 4.700,00]", disse à Agência EFE Michel Arnald, que é caminhoneiro. Outro manifestante que se identificou apenas como “Michel”, pai de cinco filhos, disse que o momento é de continuar a luta.
Desde 17 de novembro, quando foi convocado o primeiro grande protesto nacional por meio das redes sociais, dezenas de "coletes amarelos" - que ganharam esse nome por usarem uma jaqueta fluorescente obrigatória nos carros da França para o caso de acidente - estão nas rotatórias da cidade.
Os “coletes amarelos” defendem o aumento dos valores do salário mínimo e das aposentadorias e também a renúncia de Macron. Todos os dias os manifestantes fazem uma fogueira improvisada em locais turísticos de Paris. O colete amarelo virou uma espécie de símbolo de luta social.

TEXTO 3 – Conheça o movimento francês dos 'coletes amarelos' em cinco perguntas
Veja a seguir cinco dados sobre este movimento apolítico e sem líder visível que tem levado milhares de franceses às ruas mediante convocações feitas nas redes sociais.
- Quem são os 'coletes amarelos'? -
O movimento dos "coletes amarelos" nasceu em poucas semanas à margem dos sindicatos e partidos políticos. O estopim: a alta dos preços dos combustíveis.
Seu nome faz referência à vestimenta fosforescente utilizada por todo motorista na Franca em caso de incidente em uma estrada para ter mais visibilidade. Apoiado principalmente pelas pessoas que vivem na periferia, em províncias ou zona rurais, se tornou um movimento mais amplo contra a política tributária do governo, que muitos consideram que favorece os mais ricos.
"Não estão questionando o imposto em si, mas a ideia de que não está sendo dividido de forma equitativa", declara Alexis Spire, diretor de pesquisa do CNRS.
Mas as reivindicações dos "coletes amarelos" são diversas. Alguns pedem que seja restabelecido um imposto aos mais ricos, enquanto outros, medidas para aumentar o poder aquisitivo, e os mais radicais querem a renúncia de Macron.
- No que difere de outros movimentos? -
Alguns o comparam com a revolta dos "gorros vermelhos" bretões que obrigaram o governo socialista de François Hollande (2012-2017) a eliminar um imposto aos caminhões para lutar contra a contaminação.
Mas para Danielle Tartakowsky, professora de História Contemporânea, este é "inédito" em vários aspectos. "Primeiro porque nasceu nas redes sociais (...) e segundo porque recorre a um novo modelo de organização", desligado dos corpos intermediários.
E apesar de ter semelhanças com o "Nuit Débout", a versão francesa dos "Indignados" do 15-M na Espanha, os analistas concordam que, sociologicamente, não se trata das mesmas bases.
Os "Indignados franceses" eram jovens urbanos, formados, preocupados com a falta de oportunidades, enquanto os "coletes amarelos" são operários, funcionários precários, de zonas rurais ou cidades de tamanho médio, assinala Jérôme Sainte-Marie, diretor do instituto de pesquisas PollingVox.
"Estes territórios sofreram uma diminuição dos serviços públicos nos últimos anos. Seus habitantes se sentem abandonados pelos poderes públicos e ignorados pelos políticos", aponta Spire.
- Quão grande é este movimento? -
No sábado, 17 de novembro, primeiro dia de ação nacional convocado pelos "coletes amarelos", 300 mil pessoas participaram de protestos em todo o país, com um balanço de dois mortos e mais de 600 feridos.
Os protestos esporádicos continuaram ao longo da semana, com bloqueios de estradas e de depósitos de combustíveis.
No sábado passado (24) apenas participaram pouco mais de 100 mil pessoas em manifestações em toda a França, oito mil delas em Paris.
A atenção foi focada na capital francesa, onde aconteceram confusões enfre manifestantes e a polícia na avenida dos Champs-Élysées, com um balanço de 103 detidos.
- O que Macron anunciou? -
Apesar de, segundo as pesquisas, a maioria dos franceses apoiar o movimento, Emmanuel Macron anunciou nesta terça-feira (27) que não deixará de aumentar este imposto diante do "alerta ambiental".
"Fim do mundo ou fim do mês, precisamos trata as duas" questões, assinalou o presidente, reafirmando a necessidade de conciliar as exigências sociais e a urgência ambiental. Entretanto, anunciou que imposto sobre a gasolina e o diesel será adaptado em função da flutuação do preço do barril de petróleo. Concretamente, se o preço subir, o governo poderia decidir suspender ou reduzir este aumento. Mas, por enquanto, se mantém como planejado e entrará em vigor em 1º de janeiro de 2019.
Anunciou também uma "grande consulta" sobre "a transição ecológica e social", um pacote de medidas para estimular os franceses a adotar modos de vida e de transporte menos poluentes, pelo que justifica a alta dos combustíveis.
- Este movimento pode durar? -
Até o momento, os "coletes amarelos" gozam de um amplo apoio público. Uma pesquisa realizada na semana passada mostrou que 70% dos perguntados considerava os protestos justificados.
Mas a queda da participação nas manifestações sugere que o movimento está caindo.
"O movimento poderia desaparecer por desgaste", adverte Jérôme Sainte-Marie.
"Se no próximo sábado só saírem às ruas 50 mil pessoas, poderia ser o seu fim", previu.
"Mas o que fez o movimento aflorar - a rejeição à política de Macron - não desaparecerá tão fácil", concluiu.

TEXTO 4 – Maio de 1968: as origens e os ecos do movimento
No dia 10 de maio de 1968, um grupo de pelo menos 20 mil estudantes franceses ergueu barricadas feitas de carros virados, carteiras e outros móveis destruídos, transformando o Quartier Latin, bairro estudantil da região central de Paris, numa espécie de ilha ou de território autônomo em relação a todo o restante da capital.
A divisão, criada fisicamente pelos destroços acumulados ao longo de dias de protestos e de enfrentamento com a polícia, era, em si, a representação tangível de outras divisões, muito maiores e mais profundas, que mantinham os protagonistas daquela geração em confronto aberto com os valores dominantes da sociedade de então.
As barricadas do Maio de 1968, em Paris, representavam a separação irreconciliável de duas gerações, de pais e filhos, a separação moral da sociedade e dos costumes, entre conservadores e liberais, e, por fim, a separação política e econômica de boa parte do mundo, entre comunistas e capitalistas, no auge do enfrentamento ideológico entre esses dois blocos, personificados pelos Estados Unidos, de um lado, e pela URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), de outro, com dezenas de outros países, movimentos e personalidades orbitando ao redor.
De Paris, o movimento se espalhou pelo mundo, e, após 1968, pelo tempo.
Para entender a dimensão dos eventos daquele período e sua influência sobre o presente, é preciso percorrer a linha do tempo, conhecer seus protagonistas e também as críticas às pretensões dos que falaram em nome daqueles protestos, que agora completam meio século.
“Maio de 68” é uma expressão que se refere a um conjunto de eventos espaçados no tempo e no mundo, que, na verdade, tiveram início em março, não em maio; e cujo berço foi uma universidade em Nanterre, nos arredores de Paris. Esses eventos tiveram início com uma onda de debates no meio universitário francês, seguidos de ocupações, atos públicos, discursos, assembleias e protestos de rua, que rapidamente evoluíram para o enfrentamento aberto com a polícia e com toda estrutura formal de força e de poder na França – fosse no núcleo familiar, nos embates geracionais de fundo moral, por exemplo, sobre questões ligadas a gênero e sexualidade, fosse de maneira mais ampla na sociedade, no questionamento à figura do presidente, do primeiro-ministro e até do Estado, em si, assim como das leis, do dinheiro e da religião. O movimento teve como bandeira um pacote de reivindicações que partiram de demandas extremamente pontuais, como reformas na grade curricular, passando por pautas estruturais, como o fim da Guerra no Vietnã e o fim do capitalismo, até chegar às reivindicações de cunho filosófico e existencial – como no lema “seja realista, queira o impossível”, que expressava o caráter artístico, poético e ilimitado que seus protagonistas atribuíam à própria forma de lutar contra estruturas que eram consideradas pesadas, antigas, opressoras, desiguais, superadas e obsoletas.
A onda de Maio de 1968 teve como primeiro e principal ator o movimento estudantil, seguido imediatamente pelos sindicatos de trabalhadores e, na sequência, por artistas e intelectuais não apenas da França, mas de muitos outros países, incluindo o Brasil.
Juventude, ruptura, rebeldia e liberdade nunca foram condições exclusivas da Paris de 1968, tampouco eram monopólio francês. A onda de contestação geracional, moral e política se alastrava por boa parte do mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, tendo como vetor as transmissões via satélite, a literatura, o cinema e, principalmente, a música pop.
Para entender como o espírito de 1968 se espalhou geograficamente pelo mundo, é preciso saber, de saída, que a maior parte dos estudantes e dos trabalhadores envolvidos nesse movimento estava conectada à ideia de construção de uma política de esquerda, baseada em algum tipo de socialismo utópico, igualitário e fraterno. Para muitos dos protagonistas do movimento de 1968, esse socialismo idealizado não estava, por certo, presente no capitalismo. O Maio de 1968 contestou tanto a repressão militar de direita que tinha apoio dos EUA quanto a repressão militar de esquerda, sob batuta da URSS
A Primavera de Praga, ocorrida em 1968 na Tchecoslováquia, sob a liderança de Alexander Dubcek, tentava construir um “socialismo com face humana” no país, em contraposição ao modelo centralizador, censor e ditatorial imposto pelos soviéticos. “O que as cabeças pensantes [de Maio de 1968] diziam era uma coletânea de ideias malucas de grupos de esquerda: revisionistas socialista, trotskistas, maoístas, anarquistas, surrealistas e marxistas. Eles eram anticomunistas tanto quanto anticapitalistas. Alguns pareciam ser anti-industriais, anti-institucionais e até antirracionais”, definiu Peter Steinfels, jornalista do The New York Times que, em maio de 1968, era um dos estudantes envolvidos nos protestos no Quartier Latin, em Paris.
Maio de 1968 nutriu e se nutriu, por exemplo, do movimento americano pela defesa dos direitos civis – de negros, mulheres e gays – e de oposição à guerra no Vietnã, na qual os EUA haviam entrado quatro anos antes.
Na América Latina, o movimento conectou-se com a luta dos estudantes e dos trabalhadores do México. Eles reivindicavam mudanças na condução política do país que, desde 1929, estava nas mãos do PRI (Partido Revolucionário Institucional). O movimento também reverberou no Brasil. Desde 1964, o país estava sob ditadura militar. O movimento estudantil era perseguido e seus membros estavam sujeitos a prisão, tortura e morte. Em 1968, as contestações ao regime ganharam força. Artistas e intelectuais se uniram aos estudantes no mês de junho na “Passeata dos Cem Mil”. Em dezembro, os militares decretaram o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que suprimiu uma série de garantias individuais e inaugurou o período mais duro da repressão. O Maio de 1968 repercutiu em todos esses contextos – fossem de repressão militar de direita com apoio dos EUA, fosse de repressão militar de esquerda, sob batuta da URSS – inspirando jovens que tinham em comum alguma forma de rebeldia contra o que estava estabelecido como poder.
Real Time Web Analytics